COMPREENDENDO MELHOR A DUALIDADE…

ciclo do tao

A Dualidade

Por: Bernardo Sommer

Yin (Lado Preto): Vazio, Frio, Sombra, Abstrato, Subjetivo, “Caos”, Feminino
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Yang (Lado Branco): Forma, Calor, Luz, Lógico, Objetivo, “Ordem”, Masculino.

A dualidade é uma das formas que a Fonte (Singularidade) manifesta-se, onde Yang tende a se expandir, se afastar do centro, se tornar mais complexo, gerando variações e Yin tende a contrair, ir em direção do centro, retornar a simplicidade da unidade.

tumblr_mcn95tApEP1qalxxzo1_500Alguns exemplos que dei acima estão relativos a interpretação, eu cito-os apenas para mostrar como é inerente desta existência a interação entre os “opostos”, mas que na realidade não são opostos, apenas diferentes processos dentro do mesmo campo de existência, que em suma, funciona como um grande processo só. Para demonstrar como estas forças não são opostas, mas complementares, cito o exemplo maravilhosamente oferecido pela Psicologia Gestalt, a ideia de Figura e Fundo, que postula que a mente não pode reconhecer objetos sem a presença de um fundo, da mesma maneira que não perceberíamos a existência de um fundo sem a presença de objetos, nem que seja em um aspecto bidimensional, como exemplificado nas imagens do Teste de Rorschach. Normalmente pensamos em preto e branco como algo que se anulam mutuamente, mas, imagine uma situação hipotética onde existisse apenas preto, isso seria o mesmo que ser cego, nada existiria, nada importaria. O mesmo se aplica caso houvesse apenas branco. É somente através do contraste que percebemos a existência de algo, como o exemplo de preto e branco, que são diferentes, mas implicitamente eles são um processo.

As polaridades ditas opostas não devem ser interpretadas como “bem” e “mal”, pois isso é uma criação da mente humana, é uma questão de opinião, de preferências, optamos pelo que nos é agradável e não pelo o que é desagradável, mas na realidade não existe tal coisa, a Singularidade não opina, ela é.
Uma visão mais apropriada seria falar em termos de “positivo” e “negativo”, mas novamente, um precisa do outro para existir, da mesma maneira como você não tem como saber se está certo a não ser que alguém esteja errado. Assim como o “nada”(“negativo”) e o “tudo”(“positivo”) precisam um do outro para existir, pois o nada não seria nada se não houvesse um conteúdo para compararmos o que cada um é, da mesma maneira o conteúdo não poderia existir se não houvesse um espaço no qual ele pudesse estar.

Temos o costume de ver as diferenças como uma dicotomia. Exemplo: a vida é diferente da morte, o bem é diferente do mal, a luz é diferente da escuridão, etc., embora isso seja verdade por um lado, de maneira oculta, ambas polaridades são diferentes partes de um processo só.
Uma dicotomia é uma divisão na qual o campo não é considerado como uma totalidade que possui suas características diferentes e interconectadas, mas como uma diversidade de forças não relacionadas e/ou competidoras entre si. O pensamento dicotomizado interfere na autogestão da consciência, pois gera tendências intolerantes em relação às diversidades que existem nas pessoas, nas situações e as várias faces da existência em si, que são muitas vezes paradoxais.

Existe grande importância em desenvolver o que Alan Watts chamava de “pensamento polar“, apesar de não ser exatamente um pensamento e sim uma forma de percepção, onde a sensação e sentimento também estão envolvidos. O “pensamento polar” é ver a interconexão entre todas as coisas que parecem anularem-se mutuamente por serem “opostas”. A importância nisso é enxergar a si mesmo de uma maneira completa, integrada, pois assim os conflitos podem ser usados de maneiras produtivas para gerar aprendizados e a criatividade necessária para transformarmos a nós mesmos, e assim o mundo. Sem essa visão abrimos espaço para o conflito, e este é o motivo pela qual os administradores da nossa sociedade se utilizam tanto da estratégia de dividir e conquistar.

O externo é reflexo do interno, e os administradores do mundo sabem disso. Toda a ignorância do mundo está dentro de cada um de nós, aquilo que chamamos de maldade está no coração humano, e eles se aproveitam da nossa ignorância, da nossa inconsciência sobre nós mesmos, para nos empurrarem de um lado para outro e servirem suas vontades.
É muito fácil cairmos na crença de que o mal mora no coração dos criminosos, dos traficantes de drogas, dos terroristas, das pessoas de caráter duvidoso, etc. A ideia de que mal mora no coração do outro é um dos pilares que sustenta a teia de ilusões disseminadas pelo Governo Oculto. Nós somos os cocriadores de tudo o que existe, um “pequeno” ato afetará toda existência, pois tudo está interconectado, e isso pode ser usado de maneira produtiva ou destrutiva.

  • Uma visão integradora

“Procurei por Deus e só achei a mim mesmo. Procurei a mim mesmo, e só achei Deus.”

— Proverbio Sufi

O Buddha disse: “Aquele que tem a experiência de unidade da existência vê seu próprio ser em todos os seres, e todos seres em seu próprio ser, com isso ele vê tudo com olhos imparciais.”, com essa percepção jamais faríamos mal a nossos irmãos.

Esse tipo de ensinamento, de que tudo é um, não costuma ser compartilhado na religião cristã com muita frequência, embora esteja na própria bíblia, segundo o profeta Isaías (45:5 e 7): “Eu sou o senhor e não há nada além de mim”, “Eu formo a luz e crio a escuridão, eu trago a prosperidade e crio a desgraça, eu, o senhor, faço todas as coisas”. O motivo disso não ser propagado entre os cristãos é porque abre espaço para o questionamento sobre o conceito que temos de “deus”, e principalmente, quem somos nós e qual nosso papel, de fato, nesta existência. E isso não interessa àqueles que possuem monopólio sobre as crenças humanas, já que sem a nossa crença de medo da morte, de que nossa ganância é justificada, ou qualquer crença de preservação do “eu” nos afasta da conexão com a unidade, e portanto, da compaixão para com todos os seres vivos.

“Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”       

— 1 João 4:8

Amor não é apenas ter relação sexual, não é atração emocional ou intelectual, ou sequer uma “troca de energias”, e certamente o amor não é a fome do coração pelo afeto. O amor é uma poderosa vibração vindo direto da Fonte. O amor que falamos aqui não é uma emoção, na verdade, é um estado de consciência, uma forma de estar no mundo, uma maneira de ver a si mesmo e aos outros, é o que podemos chamar de empatia ou compaixão, mas no fundo é percepção que nós somos “o outro”.
Apesar desta minha tentativa de definir amor, é importante destacar que o amor não pode ser definido, quando definimos algo estamos usando nosso intelecto para limitar este algo em conceitos e com isso deixamos de amar.
O amor não se encontra no pensar, nem no sentir, ele se encontra no ser.

  • A Dualidade na Cabala

A explicação da origem do Universo, segundo a Cabala, também se resume a dois personagens: a Luz (Yang) e o Recipiente (Yin). Num dado momento, a Luz, que é puro amor infinito, sentiu vontade de compartilhar todo aquele amor e criou o Recipiente, apenas para receber o que ela tinha a oferecer, numa união perfeita. Só que, um dia, de tanto receber amor, o Recipiente começou a absorver as características da própria Luz e também sentiu necessidade de compartilhar. Como a Luz não podia receber do Recipiente, pois ela já contém tudo que existe, este começou a se sentir inferior e usando de seu livre arbítrio, “se separou da Luz” e criou o seu próprio mundo, finito, limitado. Para a Cabala, esse é o instante que os cientistas definem como Big Bang, a criação do Universo a partir de uma gigante concentração de matéria e energia em um único ponto.

Para a Cabala, os seres humanos são descendentes diretos do Recipiente e portanto, essencialmente recebedores. Isso explica a imensa dificuldade de doar e compartilhar e o desejo de sempre receber. Basta observar as crianças. Antes de elas aprenderem a dividir com os amigos, são naturalmente egoístas e querem tudo para si. Faz parte da essência humana.

No fundo, não há nada de errado com o fato de desejarmos bens materiais e não-materiais. A grande questão é o propósito com que pedimos e o que fazemos com o que conquistamos. Nosso grande desafio no mundo da matéria é aprender a transformar o egoísmo extremo em que vivemos hoje – e que gera uma série de conflitos internos e externos – num ato de receber para compartilhar amor, alegria, bondade, tempo, saúde e conhecimento. Exatamente como desejava o Recipiente, no momento em que se separou da Luz.

  • A Separação

O Jogo de Tempo e Espaço

Destacar que a separação é uma ilusão é fundamental aqui, jamais podemos nos separar da totalidade, pois sem nós tudo que existe não seria tudo que existe, seria “tudo que existe, exceto nós”.
A dualidade é só um JOGO, estamos dando forma a parte de nós que é abstrata. Essa realidade é real somente até certo ponto, mas mesmo sendo “real”, não faz dela nossa verdade absoluta. E se existe uma verdade absoluta, ela certamente é o conjunto de verdades relativas, pois necessariamente precisa englobar tudo que existe. O que não existe simplesmente não existe, é impossível sequer imaginar a “não-existência”.

Por isso a pergunta “porque nós existimos” é insignificante, pois nós precisamos existir. Colocando de outra maneira, a existência simplesmente é, a pergunta “porque a existência existe” é uma pergunta criada dentro da existência, portanto, a pergunta está subjugada à existência, mas a existência não está subjugada à pergunta. Além do mais, a característica fundamental da existência é existir, ela não precisa justificar a si mesma seu motivo de existir. Todas as coisas que nunca irão existir já não existem, não há espaço na “não-existência” para algo que existe. E como vimos aqui [A Ilusão de Tempo e Espaço: Matrix] todos os momentos (tempos) e todos os lugares (espaço) existem no eterno agora, portanto, nunca deixaremos de existir, apenas deixaremos de existir nesta forma que estamos vivenciando.

“Pois eu estou dividido pelo bem do amor; para haver a possibilidade de união.”

— “O Criador” (AL I:29) O Livro da Lei. 93

“Toda matéria é somente energia condensada em vibrações baixas, somos todos a mesma consciência tendo experiencias de maneira subjetiva. Não existe o que chamamos de morte, a vida é só um sonho, e nós somos a imaginação de nós mesmos”

— Bill Hicks

  • Concluindo

Como historicamente essa visão de polaridade, Yin e Yang, foi popularizada pelo I-Ching, vou deixar abaixo sua descrição de como funciona a interação entre ambos os lados.
O I-Ching nos diz que para termos corpo e mente saudável é preciso estarmos em equilíbrio com Yin e o Yang, Para entendermos como podemos estar em harmonia entre ambas polaridades há 7 leis, ou padrões que a existência dualística segue, e 12 teoremas das possíveis combinações neste modo da energia interagir.

Os padrões são:
  1. Todo o universo é constituído de diferentes manifestações da unidade infinita;
  2. Tudo se encontra em constantes transformações;
  3. Todas as contrariedades são complementares;
  4. Não há duas coisas absolutamente iguais;
  5. Tudo possui frente e verso;
  6. A frente e o verso são proporcionalmente do mesmo tamanho;
  7. Tudo tem um começo e um fim.
Os teoremas são:
  1. Yin e Yang são duas extremidades de pura expansão infinita: ambas se apresentam no momento em que a expansão atinge o ponto geométrico da separação, ou seja, quando a energia se divide em dois, ou seja, no momento de criação deste universo;
  2. Yin e Yang originam-se continuamente da pura expansão infinita;
  3. Yang tende a se afastar do centro; Yin tende a ir para o centro; E ambos produzem energia;
  4. Yin atrai Yang e Yang atrai Yin; Yin repele Yin e Yang repele Yang;
  5. Quando potencializados, Yin gera o Yang e Yang gera o Yin;
  6. A força de repulsão e atração de todas as coisas é proporcional à diferença entre os seus componentes Yin e Yang;
  7. Todos os fenômenos têm por origem a combinação entre Yin e Yang em várias proporções;
  8. Os fenômenos são passageiros por causa das constantes oscilações das agregações dos componentes Yin e Yang;
  9. Tudo tem polaridade;
  10. Não há nada neutro;
  11. Grande Yin atrai pequeno Yin; o grande Yang atrai o pequeno Yang;
  12. Todas as solidificações físicas são Yin no centro e Yang na periferia.

Não somos anjos ou demônios, somos os dois.”
— Carl Jung 

Por isso…
A coisa mais assustadora que existe é aceitar a si mesmo completamente.”
Carl Jung

Mas…
Não existe como criar consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, não importa o quão absurdo seja, para evitar encarar a própria alma. Não nos tornamos iluminados apenas imaginando figuras de luz, mas criando consciência da escuridão. Porém, esse procedimento é desagradável, portanto, não popular.
Carl Jung

Então…
Aprenda a amar com todo o seu coração e aceitar o lado desagradável dos outros (e o seu). Qualquer um pode amar uma rosa, mas é preciso ter um grande coração para incluir os espinhos.
Ditado Budista

 


Via: Evolução da Consciência: A Dualidade

SOBRE O I CHING – O LIVRO DAS MUTAÇÕES Os Oito Trigramas Básicos

 

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Trigrama

Por: O Arquivo

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Bagua

Os Trigramas (pinyin: guà) são desenhos que correspondem às 8 possibilidades de combinação de Yin Yang em três linhas. São elementos que estruturam o livro chinês I Ching (pinyin: yì jing). A representação dos oito trigramas desenhados em torno de um mesmo centro é chamado em chinês de Bagua. Os trigramas são sequências formadas por três linhas, compostas pela combinação de linhas contínuas ( ____ ) e linhas quebradas ( __ __ ).

As linhas contínuas representam o Yang (o convexo, a força, o movimento) … enquanto as linhas quebradas representam o Yin (o concavo, a fraqueza, a quietude). Estas linhas agrupadas em pares originam os quatro bigramas. Através da adição de uma linha aos bigramas são constituídos os trigramas, representações básicas dos fenômenos da natureza.

Os Oito Trigramas

Por Aoi Kuwan

“O ilimitado gera o limitado, isto é o absoluto (Taiji). O Taiji gera as duas aparências, o yin e o yang. As duas aparências geram as quatro imagens, pequeno yin, grande yin, pequeno yang, grande yang. As quatro imagens agem sobre os oito trigramas, e oito vezes oito resulta em sessenta e quatro hexagramas”.

Esta é a tradução de um pequeno poema composto por Fu Hsi, tido como o criador do I Ching, para explicar as suas relações. Os oito trigramas são refinamentos do Taiji, o yin e o yang, e por isso também se encontram em constante movimento. Combinados, eles formam os sessenta e quatro hexagramas que pautam a consulta oracular. Por isso, é importante estudar o seu significado, seu simbolismo e suas relações, pois é através da interação entre os dois trigramas e de suas linhas (que podem ser móveis ou fixas) que obtemos a interpretação do hexagrama.

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Dos Trigramas

Do Livro I Ching – O Livro das Mutações.

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*As estruturas formadas por três linhas, assim como as formadas por seis linhas, são ambas denominadas em chinês “Kua”. Esse termo foi traduzido por Richard Wilhelm como “Zeichen”, “signo”. Deu-se preferência, num caso e noutro, aos termos “trigrama” (3 linhas) e “hexagrama” (6 linhas), usados por James Legge em “The Yi King”, uma vez que, assim, evita-se uma problemática ambigüidade. A tradução inglesa, a tradução chilena e a tradução francesa adotaram esse mesmo procedimento. (Nota da tradução brasileira).

Os Trigramas correspondem a 8 possibilidades de combinação de Yin-Yang ou as linhas. Elementos que estruturam o Livro Chinês I-Ching .Os trigramas são sequências formadas por três linhas aéreas, compostas pela combinação de Linhas contínuas (____) representando uma energia YANG e linhas quebradas (__ __) representando uma energia YIN.

Linhas contínuas representam como o Yang (o convexo, a Força, o Movimento) enquanto como Linhas quebradas representam o Yin (o côncavo, a fraqueza, a quietude). Estas Linhas agrupadas em pares originam Os Quatro bigramas. Através da adição de uma Linha aos bigramas são constituídos os trigramas, que são representações básicas dos fenômenos da natureza.

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Descrição:

01. Chien – O Criativo – Céu
02. Tui – A Alegria – Lago
03. Li – O Aderir – Fogo
04. Chen – O Incitar – Trovão
05. Sun – A Suavidade – Vento
06. Kan – O Abismal – Água
07. Ken – A Quietude – Montanha
08. Kun – O Receptivo – Terra

Os Oito trigramas mostram o caminho através de suas imagens: as palavras que acompanham as linhas e as decisões falam segundo as circunstâncias. Na medida em que o firme e o maleável estão intercalados, pode-se discernir a boa fortuna e o infortúnio.

SOBRE A NATUREZA DOS TRIGRAMAS (Capítulo IV)

Do Livro I Ching – O Livro das Mutações

1.  Os trigramas luminosos possuem mais linhas obscuras, os trigramas obscuros possuem mais linhas luminosas. Os trigramas “luminosos” são os três filhos: (Chên), (K’an) e (Kên), todos compostos de duas linhas obscuras e uma linha luminosa. Os trigramas “obscuros” são as três filhas: (Sun), (Li) e (Tui), todos compostos de duas linhas luminosas e uma linha obscura.

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2.  Qual é a razão disso? Os trigramas luminosos são ímpares; os obscuros são pares.
Os trigramas luminosos se compõem das linhas 7 + 8 + 8 ou 7 + 6 + 8 ou 7 + 6 + 6 ou 9 + 8 + 8 ou 9 + 6 + 6 ou 9 + 6 + 846. Usando os números apropriados, pode-se obter do mesmo modo o valor numérico dos trigramas obscuros. Assim, a soma dos valores das linhas nos trigramas luminosos sempre tem como resultado um número ímpar e a linha que representa o número ímpar47 é, portanto, determinante do trigrama luminoso. No caso dos trigramas obscuros ocorre o inverso.

3.  Qual é sua natureza e qual sua essência? Os trigramas luminosos têm um governante e dois súditos. Esses trigramas revelam o caminho do homem superior. Os trigramas obscuros têm dois governantes e um súdito; este é o caminho do homem inferior.

Onde só um governa, existe unidade. Onde, ao contrário, um homem deve servir a dois senhores, nada de bom pode resultar. Esta verdade está aqui ligada um tanto acidentalmente à forma do trigrama.

Uma linha inteira, pois as linhas inteiras, representando o Criativo, o masculino, o Pai, estão associadas aos números ímpares, enquanto que as linhas partidas, representando o Receptivo, o feminino, a Mãe, estão associadas aos números pares, em virtude também da possibilidade de divisão perfeita dos mesmos.

No início, o Livro das Mutações consistia numa coleção de signos usados como oráculos. Na antiguidade, em toda parte usavam-se oráculos. Os mais antigos restringiam-se às respostas “sim” e “não”. Essa forma de expressão oracular foi também a base do Livro das Mutações. “Sim” era indicado por uma linha simples, inteira ( _______ ), e “Não”, por uma linha partida ( ____ ____ ). Entretanto, já muito cedo parece que se percebeu a necessidade de uma diferenciação maior e as linhas, antes isoladas, foram combinadas em pares:

A cada uma dessa combinações adicionou-se uma terceira linha. Assim surgiram os oito trigramas. Esses oito trigramas foram concebidos como imagens de tudo o que ocorre no céu e na terra. Sustentava-se também que eles sempre se acham num estado de contínua transição, passando de um a outro, assim como uma transição sempre está ocorrendo, no mundo físico, de um fenômeno para outro. Aqui se tem o conceito fundamental do Livro das Mutações. Os oito trigramas são símbolos que representam mutáveis estados de transição. São imagens que estão em constante mutação. Focalizam-se não as coisas, em seus estados de ser — como acontece no Ocidente — mas os seus movimentos de mutação. Os oito trigramas, portanto, não são representações das coisas enquanto tais, mas de suas tendências de movimento.

Essas oito imagens vieram a adquirir múltiplos significados. Representavam certos processos na natureza, correspondentes às suas próprias características.

Representavam, ainda, uma família, composta de pai, mãe, três filhos, não no sentido mitológico em que os deuses gregos povoavam o Olimpo, mas no que poderia ser chamado de sentido abstrato, ou seja, expressando não entidades objetivas, mas funções.

Considerando-se rapidamente estes oito símbolos que formam as bases do Livro das Mutações chega-se à seguinte classificação:

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Estes Trigramas também representam as direções, fenômeno natural, atributo de uma pessoa, bem como membro de uma família.

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A Família dos Trigramas

O Criativo (Chien) é o céu, e por isso é chamado o pai.

O Receptivo (Kun) é a terra, e por isso é chamado a mãe.

No trigrama do Incitar (Chen), o feminino procura pela primeira vez o poder do masculino e recebe um filho. Por isso, o Incitar chama-se filho mais velho.

No trigrama da Suavidade (Sun), o masculino procura pela primeira vez o poder do feminino e recebe uma filha; por isso, a Suavidade chama-se filha mais velha.

No Abismal (Kan), o feminino procura pela segunda vez o masculino e recebe um filho; por isso, ele se chama o filho do meio.

No Aderir (Li), o masculino procura o feminino pela segunda vez e recebe uma filha; por isso, ela se chama a filha do meio.

Na Quietude (Ken), ela procura o masculino pela terceira vez e recebe um filho; por isso, ele se chama o filho mais moço.

Na Alegria (Tui), ele procura o feminino pela terceira vez e recebe uma filha; ela, então se chama a filha mais moça.

Da Teoria Yin Yang, temos derivado do Trigrama ou ??. Então, como podemos lembrar qual é qual? Há uma canção para ele:

“chien san lian (chien é de 3 linha reta)
kun liu tuan (kun é de 3 linhas quebradas de 6)
dui shang (tui tem uma parte superior quebrado)
dom xia duan (sol tem uma base quebrada)
li zhong (li tem um centro falso)
kan zhong mun (kan tem um centro completo)
zhen tan yu (zhen é como um spitoon)
gen wan fu (gen é como uma tigela reverso)”

Céu (Chien) e Terra (Kun) determinam a direção.
Montanha (Ken) e Lago (Tui) unem suas forças. Trovão (Chen)
e Vento (Sun) estimulam-se um ao outro. Água (Kan)
e Fogo (Li) não se combatem. Assim,
os oito trigramas se interligam.

O registro do que ocorre e segue rumo ao passado depende do movimento progressivo. O conhecimento do que acontecerá depende do movimento retroativo. Por isso há, no Livro das Mutações, algarismos em ordem decrescente.

Aqui, numa expressão provavelmente muito antiga, os oito trigramas primordiais são enunciados numa seqüência de pares que, de acordo com a tradição, remonta a Fu Hsi. Isso significa que essa ordenação existia já na época da compilação do Livro das Mutações, durante a dinastia Chou. Esse arranjo é denominado “Seqüência do Céu Anterior” ou “Seqüência Primordial”, “Ordenação Primordial”. Os diferentes trigramas são relacionados aos pontos cardeais da seguinte forma (deve-se notar que os chineses situam o sul ao alto).

Na Sequência do Céu Anterior, assim como na Sequência do Céu Posterior, os trigramas devem ser vistos a partir do centro.

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Fig. 1 – Sequência do Céu Anterior (Precoce ou Sequência/Ordenação Primordial)

Ch’ien, céu e K’un, terra, determinam o eixo norte-sul. Segue-se então o eixo Kên, montanha, e Tui, lago. Suas forças se interligam, uma vez que o vento sopra da montanha em direção ao lago e as nuvens e a névoa dirigem-se do lago à montanha.

Chên, trovão, e Sun, vento, surgem fortalecendo um ao outro. Li, fogo, e K’an, água, são opostos inconciliáveis no mundo dos fenômenos. Entretanto, nos relacionamentos primordiais seus efeitos não entram em conflito mas, ao contrário, mantêm um ao outro em equilíbrio.

Aqui pode-se notar uma diferença entre a Ordem Interna e a Ordem Primordial quanto ao sexo dos trigramas derivados. Na Ordem Primordial a linha inferior sempre determina o sexo e os filhos então são:

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No esquema da Ordem Primordial (fig. 1), eles estão todos dispostos a leste.

As filhas são:

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São considerados trigramas derivados os três filhos, Chên, K’an e Kên, e as três filhas,
Sun, Li e Tui, por serem resultantes da influência do Pai, Ch’ien, sobre a Mãe, K’un (os filhos), e da influência da Mãe, K’un, sobre o Pai, Ch’ien (as filhas). Assim, os filhos ligam-se em especial à Mãe e as filhas, ao Pai; por isso as linhas Yin, femininas, são majoritárias nos trigramas dos filhos, enquanto predominam as linhas Yang nas filhas. Há um significativo paralelismo com a interpretação freudiana do problema da sexualidade infantil. Na seção 10 essa derivação será mais demoradamente estudada. (Nota da tradução brasileira.)

A idéia de “receber um filho” ou “uma filha” indica que os trigramas dos filhos surgem quando o trigrama da mãe acolhe uma linha vinda do pai, isto é, uma linha Yang, seja na primeira, segunda ou terceira posição. Os trigramas das filhas surgem quando ao contrário, Ch’ien, o pai, recebe uma linha vinda da mãe, uma linha Yin, seja na primeira, segunda ou terceira posição.

Nos filhos, em virtude dessa derivação, a substância procede da mãe — por isso as duas linhas femininas — enquanto que a linha dominante e determinante vem do pai. O oposto ocorre no caso das filhas. Na progênie, o sexo é sempre oposto ao de quem “procura”.

Estes trigramas, por sua vez, estão dispostos a oeste. Portanto, na ordem Interna, só Chên e Sun não se modificam quanto ao sexo. O esquema (fig. 2) mostra os três filhos à esquerda de Ch’ien, do Criativo, enquanto K’un tem as duas filhas mais velhas à sua direita e a filha mais moça à sua esquerda, entre ela própria, K’un, e Ch’ien.

Quando os trigramas se interligam, isto é, quando estão em atividade, observa-se um duplo movimento. O primeiro é o movimento habitual, progressivo, no sentido dos ponteiros do relógio; acumula e se expande com o decorrer do tempo e determina os acontecimentos que seguem rumo ao passado. O segundo é o movimento oposto, retroativo, que se dobra e contrai no decurso do tempo; é através dele que as sementes do porvir vêm a tomar forma. A compreensão desse movimento possibilita o conhecimento do futuro. Isto pode ser expresso na seguinte imagem: caso se compreenda como uma árvore está contida no interior de uma semente, se poderá também compreender o futuro desdobramento da semente em árvore.

O trovão provoca o movimento, o vento gera a dispersão,
a chuva gera umidade, o sol gera o calor,
a Quietude gera imobilização, a Alegria gera o contentamento,
o Criativo gera o domínio, o Receptivo gera o abrigo.

Aqui novamente são apresentadas as forças simbolizadas pelos oito trigramas primordiais em termos de seus efeitos sobre a natureza. Os quatro primeiros trigramas são designados por suas imagens, os quatro últimos, por seus nomes. Isso porque só os quatro primeiros designam, em suas imagens, as forças da natureza em atividade no curso do tempo, enquanto os quatro últimos indicam as condições que surgem no decorrer do ano.

Assim se tem primeiro uma linha de movimento progressivo (ascendente), na qual manifestam-se os efeitos das forças do ano anterior. De acordo com a seção 3, seguindo-se esta linha chega-se ao conhecimento do passado, pois este subsiste como causa latente nos efeitos que gerou. No segundo conjunto, quando os trigramas são nomeados não através das imagens (fenômenos), mas de acordo com seus atributos, há um movimento retroativo, um salto de Li, que se encontra a leste, de volta a Kên, no noroeste. Desenvolvem-se, nessa linha, as forças do ano que está por iniciar. Seguindo-se essa linha chega-se ao conhecimento do futuro que, em suas causas, está sendo preparado como efeito, como sementes que, concentradas em si mesmas, preparam-se para o crescimento.

Dentro da Seqüência Primordial essas forças agem em pares de opostos. O trovão, a força eletricamente carregada, desperta as sementes do ano anterior; sua contraparte, o vento, dissolve a rigidez do gelo do inverno. A chuva umidece as sementes, possibilitando-lhes o germinar; sua contraparte, o sol, prove o calor necessário. Por isso a expressão: “Água e fogo não se combatem”. Em seguida entram em jogo as forças retroativas. A Quietude bloqueia qualquer nova expansão: começa a germinação. Sua contraparte, a Alegria, gera o contentamento da colheita. Finalmente entram em jogo as duas forças diretrizes: o Criativo, que representa a grande lei da existência, e o Receptivo, que indica o abrigo no seio materno, ao qual tudo retorna após o ciclo da vida se ter completado. Assim como no ciclo do ano, também na vida humana existem essas linhas de forças ascendentes e retroativas, das quais se podem deduzir o passado e o futuro.

Deus se manifesta no signo do Incitar (Chen); ele faz com que todas as coisas se completem no signo da Suavidade (Sun); ele leva as criaturas a se perceberem umas às outras no signo do Aderir (Li) – (a luz); ele faz com que elas se ajudem no signo do Receptivo (Kun). Ele infunde-lhes o contentamento no signo da Alegria (Tui); ele luta no signo do Criativo (Chien), se esforça no signo do Abismal (Kan) e conduz à plenitude no signo da Quietude (Ken).

Aqui se apresenta a seqüência dos oito trigramas de acordo com o arranjo atribuído ao Rei Wên, e que é denominada a “Seqüência do Céu Posterior”, ou “Ordem Interna do Mundo”. Os trigramas aqui são retirados de seu agrupamento em pares de opostos e apresentados segundo a seqüência temporal em que se manifestam no plano fenomênico durante o ciclo do ano. Assim sendo, a ordenação dos trigramas sofre modificações essenciais. Estabeleceram-se correlações entre os pontos cardeais e as estações do ano. A ordem é a seguinte:

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Fig. 2 – Sequência do Céu Posterior (Ordem Interna do Mundo)

Na Seqüência do Céu Anterior, assim como na Seqüência do Céu Posterior, os trigramas devem ser vistos a partir do centro.

O ano começa a revelar a atividade criadora de Deus no trigrama Chên, o Incitar, que está a leste e significa a primavera. A passagem que se seguirá contém explicações mais detalhadas sobre como essa atividade de Deus se realiza na natureza.

É muito provável que a seção 5 expresse um provérbio enigmático de origem muito remota, que receberá, no trecho a seguir, uma interpretação de cunho sem dúvida confucionista.

Todos os seres surgem no trigrama do Incitar (Chen), que se encontra a leste.
Eles chegam à plenitude no trigrama da Suavidade (Sun), que se encontra a sudeste. A plenitude significa que todos os seres tornam-se puros e realizados.
O Aderir (Li) é a luminosidade, na qual os seres percebem-se uns aos outros. É o trigrama do sul. O fato de os santos e sábios voltarem-se para o sul quando escutavam o sentido do universo significa que governavam voltados para a luz. Eles sem dúvida inspiravam-se nesse trigrama.
O Receptivo (Kun) significa a terra. Ele cuida para que todos os seres tenham alimento. Por isso se diz: “Ele (Deus) os leva a ajudarem-se uns aos outros no trigrama do Receptivo”. A Alegria (Tui) é o auge do outono, que proporciona contentamento a todos os seres. Por isso se diz: “Ele lhes dá contentamento no trigrama da Alegria”. “Ele luta no trigrama do Criativo”. O Criativo (Chien) é o trigrama do noroeste. Isso indica que aqui o obscuro e o luminoso incitam-se um ao outro.
O Abismal (Kan) significa água. É o trigrama do norte, do esforço a que todos os seres estão sujeitos. Por isso se diz: “Ele se esforça no trigrama do Abismal”.
A Quietude (Ken) é o trigrama do nordeste, onde consuma-se o começo e o fim de todos os seres. Por isso se diz: “Ele os conduz à plenitude no trigrama da Quietude”.

Aqui se ressalta a correspondência entre o curso do ano e o curso do dia.

Aquilo que, no trecho anterior, se descrevia como a manifestação do divino, agora é expresso em sua atuação na natureza. Os trigramas são atribuídos às estações do ano e aos pontos cardeais, através de breves referencias das quais se infere o esquema acima. Com o despertar da primavera a natureza começa a germinar e brotar. Isso corresponde ao amanhecer, ao início do dia.

Este movimento que arranca da inércia é atribuído ao trigrama Chên, o Incitar, que surge da terra sob a forma do trovão e da força elétrica (O trovão é associado a um movimento que surge da terra e não do céu, pois se pensa naquilo que, enquanto sinal das chuvas da primavera, ele indica: o início do ciclo de crescimento das sementes). Sopram, então, as suaves brisas, renova-se o mundo das plantas, cobre-se a terra de verde. Isso corresponde ao trigrama da Suavidade, do Penetrante. Sun tem como imagem tanto o vento que dissolve o rígido gelo do inverno, como a madeira que cresce organicamente. Esse trigrama tende a fazer com que as coisas fluam rumo às suas formas, que se desenvolvam e cresçam de modo a realizar o que se prefigura na semente.

Chega-se, então, à culminância do ano, ao pleno verão, ao meio-dia. Este é o ponto do trigrama Li, o Aderir, a Luz. Aqui os seres percebem-se uns aos outros. A vida orgânica vegetativa passa ao estado de consciência psíquica. Aqui há também uma imagem da sociedade humana na qual o dirigente, voltado para a luz, governa o mundo. Convém notar que o trigrama Li ocupa a posição sul, que na Seqüência Primordial era ocupada pelo trigrama Ch’ien, o Criativo. Li consiste essencialmente na linha superior e inferior de Ch’ien, que incorporou a si a linha central de K’un.

Para uma compreensão completa, deve-se visualizar a Ordem Interna do Mundo como translúcida, quando, então, através dela, brilharia a Ordem Primordial. Assim, quando se chega ao trigrama Li, encontra-se também o dirigente Ch’ien, que governa voltado para o sul.

Segue-se o amadurecimento dos frutos do campo, dádiva de K’un, a Terra, o Receptivo. É a época da colheita, do trabalho comunitário. E então, assim como a noite segue-se ao dia, vem o pleno outono, no trigrama da Alegria, Tui, conduzindo o ano à maturidade e ao contentamento. A seguir vem a estação severa, que exige provas do que foi realizado. Há uma atmosfera de julgamento. Os pensamentos retomam da terra para o céu, para o Criativo, Ch’ien. Trava-se uma luta. É justamente quando o Criativo está alcançando o domínio que o poder obscuro de Yin adquire sua maior capacidade de influência externa. Por isso o obscuro e o luminoso agora incitam-se um ao outro. Não pode haver-dúvida quanto ao resultado dessa luta, pois é apenas a conclusão decorrente de causas já existentes que foram julgadas pelo Criativo.

Depois chega o inverno no trigrama do Abismal, K’an, situado ao norte, lugar do Receptivo na Ordem Primordial. K’an tem como símbolo o desfiladeiro. É o momento do trabalho de guardar a colheita no celeiro. Assim como a água não poupa esforços, dirigindo-se sempre aos lugares mais profundos (e por isso todas as coisas acompanham seu fluir), assim o inverno no curso do ano e a meia-noite no curso do dia representam o momento da concentração.

O trigrama Kên, a Quietude, cujo símbolo é a montanha, tem um significado misterioso. Aqui, na semente, no mais profundo recolhimento e silêncio, o fim de todas as coisas une-se a um novo começo. A morte e a vida, o perecer e o ressuscitar — esses são os pensamentos que despertam a transição do ano que passa ao novo ano que chega.

Assim fecha-se o círculo. Como o dia ou o ano na natureza, cada vida, e mais ainda, cada ciclo de experiências, instaura uma continuidade que liga o antigo ao novo. A partir dessa perspectiva pode-se compreender por que em vários dos sessenta e quatro hexagramas o sudoeste representa o período de trabalho e companheirismo, enquanto o nordeste corresponde ao período de solidão, quando o antigo termina e o novo principia.

Há um espírito misterioso presente em todos os seres, e que atua através deles. Entre tudo que movimenta as coisas, nada é mais veloz que o trovão. Entre tudo que curva as coisas, nada é mais rápido que o vento. Entre tudo que aquece as coisas, nada resseca mais que o fogo. Entre tudo que alegra as coisas, nada traz mais contentamento que o lago. Entre tudo que umedece as coisas, nada é mais úmido que a água. Entre tudo que dá início e fim às coisas, nada é mais glorioso que a quietude. Por isso a água e o fogo se complementam, o trovão e o vento não atrapalham um ao outro, as forças da montanha e do lago atuam convergindo. Somente assim é possível a modificação e a transformação. Somente assim os seres podem alcançar a perfeição.

Aqui descreve-se apenas a atividade dos seis trigramas derivados (São considerados trigramas derivados os três filhos, Chên, K’an e Kên, e as três filhas, Sun, Li e Tui, por serem resultantes da influência do Pai, Ch’ien, sobre a Mãe, K’un (os filhos), e da influência da Mãe, K’un, sobre o Pai, Ch’ien (as filhas). Assim, os filhos ligam-se em especial à Mãe e as filhas, ao Pai; por isso as linhas Yin, femininas, são majoritárias nos trigramas dos filhos, enquanto predominam as linhas Yang nas filhas. Há um significativo paralelismo com a interpretação freudiana do problema da sexualidade infantil. Na seção 10 essa derivação será mais demoradamente estudada). Essa é a ação do princípio espiritual que não é uma coisa entre as outras, mas a força que se manifesta através de diferentes efeitos — do trovão, do vento, etc. Os dois trigramas originários, o Criativo e o Receptivo, não são mencionados, pois enquanto céu e terra eles são diretas expressões do próprio espírito no interior do qual, pela influência das forças derivadas, o mundo visível surge e se modifica. Cada uma dessa forças atua numa determinada direção, mas há movimento e mutação apenas porque essas forças não se anulam uma à outra mas, agindo como pares complementares de opostos, impulsionam a dinâmica cíclica da qual depende a vida do mundo.

SHUO KUA (Discussão dos Trigramas – Capítulo III)

Do Livro I Ching – O Livro das Mutações

O terceiro capítulo trata separadamente de cada um dos oito trigramas e apresenta os símbolos aos quais estão associados. Este capítulo é importante, uma vez que, em diversas ocasiões, as palavras do texto das diferentes linhas de cada hexagrama serão explicadas com base nessas associações simbólicas. O conhecimento dessas associações é importante como um instrumento para a compreensão da estrutura do Livro das Mutações.

Os Atributos.

O Criativo é forte. O Receptivo é maleável. O Incitar significa movimento. A suavidade é penetrante. O Abismal é perigoso. O Aderir significa dependência. A Quietude significa imobilidade. A Alegria significa contentamento.

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Os Animais Simbólicos.

O Criativo atua no cavalo; o Receptivo, na vaca; o Incitar, no dragão; a Suavidade, no galo; o Abismal, no porco; o Aderir, no faisão; a Quietude, no cão; a Alegria, na ovelha.

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O Criativo é simbolizado pelo cavalo que corre veloz e incansável; o Receptivo, pela vaca em sua mansidão. O Incitar tem como imagem o trovão, é simbolizado pelo dragão que, irrompendo das profundezas, ascende ao céu nas tempestades – isso corresponde à única linha forte que pressiona em direção ao alto sob duas linhas maleáveis. A Suavidade, o Penetrante, tem como símbolo o galo, guardião do tempo, cujo canto corta o silêncio e se propaga como o vento, que é parte da imagem da Suavidade. O Abismai é representado pela água. Entre os animais domésticos é o porco que vive na lama e na água. O Aderir, a Claridade, em seu trigrama Li, possuía originalmente a imagem de um pássaro de fogo, semelhante a um faisão. A Quietude, Kên, tem como símbolo o cão, guardião fiel, enquanto que a Alegria está ligada à ovelha, considerada como animal do oeste; os dois traços da linha partida ao alto indicam os chifres da ovelha.

Há variações no Livro das Mutações quanto a essas associações. Em certas passagens o Criativo é simbolizado pelo dragão; o Receptivo, pela égua; e o Aderir, pela vaca.

As Partes do Corpo

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O Criativo manifesta-se na cabeça; o Receptivo, no ventre; o Incitar, no pé; a Suavidade, nas coxas; o Abismal, no ouvido; o Aderir (o resplendor), no olho; a Quietude, na mão; a Alegria, na boca.

A cabeça governa o corpo inteiro. O ventre serve à conservação, o pé calca o chão e se move, a mão segura. Os músculos das coxas, encobertos, ramificam-se para baixo, a boca abre-se de forma visível, para o alto. O ouvido é oco por fora, o olho é oco por dentro. Esses são todos os pares de opostos que correspondem aos trigramas.

Simbolismo Adicional.

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O Criativo é o céu, é redondo, o príncipe, o pai,
jade, metal, frio, gelo, o vermelho profundo,
o bom cavalo, um cavalo velho, um cavalo magro,
um cavalo selvagem, os frutos das árvores
.

A maioria desses símbolos explicam-se por si mesmos. O jade é o símbolo da pureza imaculada e da firmeza; do mesmo modo o metal. O frio e o gelo resultam da posição do trigrama, situado a noroeste. O vermelho profundo é a cor intensificada do luminoso (no texto ele próprio*, a cor do Criativo é o azul-noite, que corresponde à cor do céu). Os vários cavalos indicam o poder, a duração, a firmeza, a força (o cavalo “selvagem” é um animal mítico com dentes de serra, capaz de despedaçar até mesmo um tigre). O fruto é o símbolo da duração da mudança.
Os comentários posteriores acrescentam: “é reto, é o dragão, é roupa de cima, a palavra”.

*Wilhelm distingue aqui o texto do I Ching propriamente dito, isto é, o Julgamento atribuído ao Rei Wen e o Julgamento das Linhas, atribuído ao Duque de Chou, das Dez Asas, comentários que distam pelos menos 600 anos dos textos de Wên e Chou. Essa distinção é também sustentada por Legge e em especial enfatizada por Iulian K. Shchutskii (Researches on the I Ching. Princeton University Press, 1979), que mostra como grande parte dos especialistas chineses, atribuindo uma autoridade excessiva a esses comentários, vem interpretando o texto via comentários, esquecendo as significativas diferenças entre eles existentes. Segundo Shchutskii, com isso muito se adicionou ao texto de conteúdos originalmente inexistentes no mesmo. (Nota da tradução brasileira)

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O Receptivo é a terra, a mãe, um tecido, o caldeirão,
a frugalidade, a superfície plana, é a vaca com um bezerro,
uma grande carroça, a forma, a multiplicidade, o tronco.
Entre os tipos de solo, é a terra negra.

Os primeiros símbolos não exigem maiores explicações. O tecido é algo que se estende; a vida cobre a terra como se fora uma vestimenta. No caldeirão cozinham-se os alimentos até que estejam prontos; a terra é, portanto, o grande crisol da vida. A frugalidade é uma qualidade fundamental da natureza. A superfície plana indica a imparcialidade da terra, que não tem preferências nem repulsas. A vaca com o bezerro é o símbolo da fertilidade; a grande carroça simboliza a terra carregando todas as coisas. Forma e ornamento são o oposto do conteúdo, que é expressão do Criativo. A multiplicidade é o oposto da unidade de Ch’ien. É do tronco que brotam os galhos, assim como toda a vida brota da terra. O negro é a escuridão em seu grau mais intenso*.

*No texto do I Ching, a cor atribuída ao Receptivo é o amarelo e seu animal é a égua.

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O Incitar é o trovão, o dragão, o amarelo escuro,
é estender, uma grande estrada, é o filho mais velho,
é decisão e veemência, o bambu verde, o junco e a cana.
Entre os cavalos significa os que relincham bem,
os que têm patas traseiras brancas,
os que galopam, os que têm uma estrela na testa.
Entre as plantas úteis significa as leguminosas.
Finalmente é o forte, o que cresce em abundância.

O amarelo escuro representa uma fusão da escuridão do céu com a terra amarela. O estender — talvez se deva ler “o florescer” — refere-se ao exuberante crescimento que ocorre na primavera e cobre a terra de plantas. A grande estrada indica o caminho que conduz todas as coisas à vida, na primavera. O bambu, o junco e a cana são plantas de crescimento particularmente rápido. O relinchar dos cavalos indica seu parentesco com o trovão. As patas traseiras brancas, vistas à distância, parecem brilhar quando o animal corre. O galope é a marcha mais rápida. As leguminosas, ao germinarem, trazem consigo a vagem.

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A Suavidade é a madeira, o vento, a filha mais velha,
o fio condutor, o trabalho; é o branco, o longo,
as alturas, é o avanço e o recuo, o indeciso, o odor.
Entre os homens refere-se aos grisalhos, os de testa larga,
os que têm muito branco nos olhos, os que estão próximo aos lucros,
de modo que obtêm três vezes mais no mercado.
Finalmente, é o signo da veemência.

Os primeiros significados não exigem maiores explicações. O fio condutor pertence a esse trigrama na medida em que se refere à difusão de ordens que se espalham como o vento. O branco é a cor do principio Yin. O Yin encontra-se aqui ao começo, na posição inferior. A madeira cresce alongando-se, o vento sobe a grandes alturas. O progresso e o retrocesso se referem à natureza mutável do vento; assim, a indecisão e o odor que o vento propaga fazem parte desse mesmo contexto. Nos homens grisalhos, com cabelos ralos, o branco predomina. Aqueles que têm muito branco nos olhos são arrogantes e veementes. Também o são aqueles que têm ambição de lucros com o que, ao final, o trigrama se converte em seu oposto e representa a violência, isto é, Chên.

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O Abismal é a água, fossos, a emboscada,
é o que se dobra e desdobra, o arco e a roda.
Entre os homens refere-se aos melancólicos,
aos que sofrem do coração, aos que padecem de dor de ouvido.
É o signo do sangue, é vermelho.
Entre os cavalos representa os que têm um belo quarto traseiro,
os que têm uma coragem selvagem, aqueles cuja cabeça pende,
os que têm cascos finos, os que tropeçam.
Entre as carroças representa as que têm muitos defeitos.
É a penetração, é a lua.
Significa os ladrões.
Entre as diversas espécies de madeira,
significa as firmes e com muitos sulcos.

Os primeiros atributos, mais uma vez, explicam-se por si mesmos. O dobrar e o desdobrar são implícitos à trajetória tortuosa da água; isso conduz à idéia do curvo, do arco e da roda. A melancolia é expressa pela linha forte encerrada entre duas linhas fracas; por isso também a doença do coração. O trigrama significa o esforço assim como o ouvido. As dores de ouvido foram deduzidas dessa dificuldade de escutar.

O sangue é o líquido do corpo, por isso a cor de K’an é o vermelho, se bem que de um tom mais claro que o vermelho de Ch’ien, o Criativo. Devido à sua propriedade penetrante, quando referindo-se a uma carroça, representa um veículo com rachaduras que, no entanto, ainda é usado para carga. A penetração é sugerida pela linha central penetrante, encravada entre duas linhas fracas. Como seu elemento é a água, representa a lua que, por isso, aparece como masculina. Aqueles que penetram secretamente num lugar e se retiram de maneira furtiva são os ladrões. Os sulcos da madeira também estão ligados ao atributo da penetração.

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O Aderir é o fogo, o sol, o raio, a filha do meio.
Significa armaduras e elmos, lanças e armas.
Entre os homens, refere-se aos que têm o ventre dilatado.
É o signo do seco.
Significa o jaboti, o caranguejo, o caracol, o molusco, a tartaruga.
Entre as árvores refere-se às que
secam na parte superior do tronco.

Quando os símbolos não são compreensíveis em si mesmos, são sugeridos pelo significado do fogo, do calor e da seca como também pelo próprio caráter do trigrama: sólido e firme por fora, oco e maleável por dentro. Esse aspecto explica a ligação com as armas, com o ventre dilatado, os animais que têm casco e as árvores ocas que começam a secar acima.

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A Quietude é a montanha, uma via de contorno,
as pequenas pedras, as portas e aberturas,
frutas e sementes; significa os eunucos e os vigias,
os dedos, o cão, o rato e as diversas espécies
de pássaros de bico preto.
Entre as árvores significa as que são firmes e nodosas.

A via de contorno é sugerida pelos caminhos das montanhas, do mesmo modo que as pedras. O portal é indicado pela forma do trigrama. As frutas e as sementes são a ligação entre o fim e o começo das plantas. Os eunucos são os guardiões das portas, os guardas vigiam as estradas; ambos protegem e vigiam. Os dedos servem para segurar. O cão toma conta, o rato rói, os pássaros de bico preto bicam as coisas com facilidade. Os troncos nodosos são os mais resistentes.

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A Alegria é o lago, a filha mais moça,
uma feiticeira, é a boca e a língua.
Significa estragar e partir-se, cair e entreabrir-se.
Entre os tipos de solo refere-se às terras duras
e com alto teor de sal.
É a concubina, é a ovelha.

A feiticeira é uma mulher que fala. O trigrama da Alegria é aberto acima, por isso a boca e a língua. Está situado a oeste e assim associado à idéia do outono, destruição; por isso estragar e romper-se, a queda e o entreabrir dos frutos maduros.

Nos locais em que lagos secaram a terra é dura e com alto teor de sal. A concubina se deduz da idéia da filha mais moça. A ovelha, fraca exteriormente e teimosa em seu interior, é evocada pela forma do trigrama, como já foi indicado acima. A ovelha e a cabra são consideradas na China como animais praticamente idênticos e têm o mesmo nome.

OS FUNDAMENTOS

Há ainda uma outra lei que deve ser considerada. No céu, os fenômenos adquirem uma forma em virtude do movimento do sol, da lua e das estrelas. Esses fenômenos seguem leis definidas. Em conexão com eles, formam-se configurações na terra, que obedecem a leis idênticas. Com isso os fenômenos na terra — o florescer e o frutificar, o crescimento e o declínio — podem ser calculados, caso se compreendam as leis do tempo. Caso se conheçam as leis da mutação, poder-se-á calculá-la com antecedência, obtendo-se, assim, liberdade de ação. Mudanças são imperceptíveis tendências à divergência que, ao atingirem determinado ponto, tornam-se visíveis, provocando transformações.

Para o pensamento chinês estas são as leis imutáveis, segundo as quais as mutações se processam. O I Ching procura demonstrar essas leis através das leis de mutação que operam no interior dos diferentes hexagramas. Quando o homem chega a reproduzir de forma completa essas leis, ele alcança uma visão satisfatória dos acontecimentos, pode entender o passado e o futuro e aplicar esse conhecimento às suas ações.

Por isso os oito trigramas sucedem-se por períodos,

quando o firme e o maleável substituem um ao outro.

Aqui se explica a mutação cíclica. Ela consiste numa rotação de fenômenos que se sucedem uns aos outros, até que se chega de volta ao ponto de partida. Como exemplos desse movimento têm-se o curso do dia, do ano e os fenômenos que, durante esses ciclos, manifestam-se nos seres vivos. A mutação cíclica é a mudança periódica que se produz no mundo orgânico, enquanto que a mutação em seqüência significa a mudança contínua, irreversível, dos fenômenos provocados pela causalidade.

O firme e o maleável sucedem-se uns aos outros no interior dos oito trigramas. Assim, o firme se modifica, como que se funde, tornando-se maleável; o maleável muda, se reúne, tornando-se firme. Desta forma os oito trigramas se convertem uns nos outros numa seqüência, e a alternância regular dos fenômenos, no decorrer do ano, se processa. O mesmo ocorre em todos os ciclos, inclusive no ciclo da vida. Assim, ao dia e à noite, ao verão e ao inverno, correspondem, no ciclo vital, a vida e a morte. Para que se possa compreender melhor a natureza da mutação cíclica e sua alternância nos trigramas, repete-se aqui a Seqüência Primordial. Há duas direções de movimento: a progressiva, crescente, e a retroativa, decrescente. A primeira parte do ponto mais profundo, K’un, o Receptivo, terra; a segunda parte do ponto culminante, Ch’ien, o Criativo, céu.

As coisas são incitadas pelo trovão e pelo raio;

são fertilizadas pelo vento e pela chuva;
o sol e a lua seguem seu curso cíclico
e às vezes faz calor, às vezes faz frio.

Aqui se tem a seqüência dos trigramas no curso do ano, de modo a que cada um deles seja a causa do seguinte. A energia criadora, Chên, o Incitar, cuja imagem é o trovão, agita-se nas profundezas da terra. À medida que surge essa força elétrica, formam-se centros de ativação que vêm eclodir em raios. O raio é Li, o Aderir, fogo.

Por isso o trovão é aqui considerado anterior ao raio. O trovão é, por assim dizer, a energia que incita o raio, não é apenas o ruído. O movimento então se desloca: instala-se o oposto do trovão, o vento, Sun. O vento traz a chuva, K’an. Há um novo deslocamento. Os trigramas Li e K’an, que antes atuavam em sua forma secundária como raio e chuva, manifestam-se agora em sua forma primária como sol, o astro do dia, e lua, o astro da noite. Em seu movimento cíclico, eles produzem o calor e o frio. Quando o sol atinge o zênite, surge o calor, simbolizado pelo trigrama do sudeste, Tui, o lago, a Alegria. Quando a lua chega ao alto do céu surge o frio, simbolizado pelo trigrama do noroeste, Kên, a montanha, Quietude. Portanto, a seqüência é a seguinte:

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Assim, 2a (Li) e 2b (K’an) são mencionados duas vezes; em sua forma secundária (raio-chuva) e em sua forma primária (sol-lua).

O caminho do Criativo produz o masculino.

O caminho do Receptivo produz o feminino.

Começa a surgir aqui a mutação não recorrente, manifesta na sucessão das gerações, um movimento progressivo que nunca retorna a seu ponto de partida. Isso mostra como o Livro das Mutações permanece estritamente ligado à vida. Segundo os conceitos ocidentais, a mutação não recorrente corresponderia à esfera em que a causalidade mecânica faz valer seus direitos. O Livro das Mutações vê a mutação seqüencial como a sucessão das gerações, ou seja, algo ainda orgânico.

Ao se integrarem, como princípio, à manifestação da vida, o Criativo e o Receptivo tomam forma corpórea; o primeiro no sexo masculino e o segundo, no sexo feminino. Assim o Criativo está presente na linha inferior de cada um dos filhos (Chên, Li e Tui na Seqüência Primordial) e o Receptivo, na linha inferior de cada uma das filhas (Sun, K’an e Kên na Seqüência Primordial – Veja lá em cima). Na Seqüência Primordial, o fator determinante do sexo é a primeira linha na qual então manifestam-se o Criativo e o Receptivo, gerando os filhos e as filhas.*

*Essa determinação dos sexos se altera quando os trigramas são considerados segundo a Seqüência da Ordem Interna do Mundo. Cf. Shuo Kua, Discussão dos Trigramas, Cap. III, séc. 10, “A Família dos Trigramas”. (Nota da tradução brasileira.)

.

O Criativo conhece os grandes começos.

O Receptivo completa as coisas concluídas.

Aqui prosseguem as considerações sobre os princípios do Criativo e do Receptivo. O Criativo produz as sementes invisíveis de todo vir a ser. Estas sementes são, a princípio, puramente espirituais; por isso, sobre elas não é possível se exercer qualquer ação ou procedimento; nesse âmbito é o conhecimento que age de forma criadora. Enquanto o Criativo atua no mundo do invisível, tendo como campo o espírito e o tempo, o Receptivo opera sobre a matéria distribuída no espaço, e completa as coisas concluídas e concretizadas. Aqui acompanha-se o processo de geração e procriação até suas últimas profundezas metafísicas.*

*Aqui os princípios do Criativo e do Receptivo estão muito próximos aos conceitos gregos do Logos e Eros, respectivamente.

O Criativo conhece através do fácil.

O receptivo é capaz de agir através do simples.

O Criativo é, em sua essência, movimento. Através do movimento ele consegue com facilidade unir o que está dividido. Ele, portanto, está livre do esforço, pois atua sobre o infinitesimal, orientando o movimento a partir desse estado mínimo. Como a direção do movimento é determinada ainda no estado germinal do vir a ser, tudo o mais se desenvolve com facilidade, de forma espontânea, segundo as leis de sua própria natureza.

O Receptivo é, em sua essência, repouso. Através do repouso o mais simples torna-se possível no âmbito do espaço. Essa simplicidade que surge da pura receptividade torna-se o germe de toda multiplicidade existente no espaço.

Aquilo que é fácil, é fácil de conhecer.

Aquilo que é simples, é simples de seguir.
Aquele que é fácil de conhecer, conquistará a fidelidade.
Aquele que é fácil de seguir, conseguirá encargos.
Aquele que possui a adesão, poderá perdurar por longo tempo;
aquele que possui tarefas, poderá tornar-se grande.
A duração é a propensão do sábio;
a grandeza é o campo de ação do sábio.

Essa passagem indica como o fácil e o simples exercem seus efeitos na vida humana. O fácil é facilmente compreendido, por isso o seu poder de sugestão. Aquele cujos pensamentos são claros e fáceis de entender conquista a adesão dos homens porque corporifica em si o amor. Deste modo ele se liberta do caos dos conflitos e das desarmonias. Como o movimento interior está em harmonia com o meio ambiente, pode produzir seus efeitos sem ser perturbado e pode durar por um longo período. Essa consistência e capacidade de duração constituem a atitude interior do sábio.

O mesmo ocorre no campo da ação. Aquilo que é simples pode ser com facilidade imitado. Por conseqüência, os outros se prontificam a empregar sua força na mesma direção, pois todos fazem com prazer o que lhes é fácil, uma vez que isso é simples. Como resultado, as energias se acumulam e o simples se desenvolve de forma natural no múltiplo. Assim ele cresce e finalmente se cumpre a missão do sábio de conduzir as multidões à realização de grandes obras.

Através do fácil e do simples pode-se

apreender as leis do mundo inteiro.
Na compreensão das leis de todo o mundo está a perfeição.

Aqui se demonstra como os princípios fundamentais expostos acima são aplicados no Livro das Mutações. O fácil e o simples são simbolizados por uma mínima mutação nas linhas. As linhas partidas tornam-se inteiras graças a um movimento fácil no qual as extremidades separadas se ligam; as linhas inteiras tornam-se partidas através de uma simples divisão ao centro. Deste modo, essas fáceis e simples mudanças reproduzem as leis que regem todos os processos sob o céu. Assim, a perfeição é alcançada.

Com isso, a natureza da mutação é definida como uma mutação das menores partes. Este é o quarto significado da palavra I, a qual, na verdade, tem apenas uma leve conexão com o significado “Mutação”.


Fontes:
https://pt.wikipedia.org
https://aoikuwan.com
http://ichingolivrodasmutacoes.blogspot.com.br/

 

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